Wiki Clínica
Transferência
A repetição, na relação com quem atende, de modos antigos de amar, temer e esperar; motor do trabalho e, às vezes, obstáculo.
Fonte
Freud, S. A dinâmica da transferência (1912). In: Obras completas, v. 10. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Ninguém chega a uma relação nova sem a própria história. Na análise, isso fica visível: sentimentos, expectativas e medos ligados a figuras importantes do passado passam a se dirigir a quem escuta. Freud chamou esse fenômeno de transferência.
O artigo de 1912
Em "A dinâmica da transferência" (1912), Freud explica que cada pessoa desenvolve, desde cedo, um modo próprio de amar e de se ligar aos outros, e que esse modo se repete em novas relações. No tratamento, ele aparece como transferência positiva, de afeto e confiança, ou negativa, de hostilidade e desconfiança, muitas vezes as duas ao mesmo tempo.
Motor e obstáculo
A transferência é o que sustenta o trabalho: é por ela que alguém volta às sessões e fala do que dói. Mas ela também pode servir à resistência, quando, em vez de lembrar e falar, a pessoa repete na relação com o analista o que não consegue dizer. Por isso a transferência não é evitada nem desmentida: é trabalhada.
Amor de transferência
Em "Observações sobre o amor de transferência" (1915), Freud trata dos casos em que o afeto toma a forma de paixão pelo analista. A orientação é ética: o analista não corresponde e não se aproveita, e o que surge é tomado como material para a análise.
O que isso muda para quem é atendido
Sentir raiva, ciúme, carinho ou decepção em relação a quem atende não é sinal de que o tratamento vai mal. Falar sobre o que incomoda na sessão, inclusive sobre o jeito de quem escuta, faz parte do processo e pode trazer algo subjetivo a ser trabalhado. A escuta e o sigilo existem para que isso possa ser dito.
Fontes
- Freud · A dinâmica da transferência (1912) e Observações sobre o amor de transferência (1915), em Obras completas, v. 10 (Companhia das Letras, 2010, trad. Paulo César de Souza)
- Laplanche e Pontalis · Vocabulário da psicanálise (1967; Martins Fontes, 4ª ed., 2001, trad. Pedro Tamen)
Conteúdo educativo; não substitui atendimento. Em crise: CVV 188 (ligação gratuita, 24h) ou SAMU 192.