Pular para o conteúdo
Loreta AndradePsicóloga e Psicanalista · CRP 04/60563

Wiki Mulheres e sociedade

Histeria

O quadro com que a psicanálise nasceu, e um nome que por séculos serviu para desacreditar o sofrimento de mulheres.

Freud e Breuer, 18952 min de leitura

Fonte

Freud, S.; Breuer, J. Estudos sobre a histeria (1895). In: Freud, S. Obras completas, v. 2. Trad. Laura Barreto; rev. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

A palavra vem do grego hystera, útero. Durante séculos, a medicina associou a histeria ao corpo feminino e a usou para explicar, e muitas vezes desqualificar, queixas de mulheres: crises, paralisias, dores, falta de ar, sem lesão que as justificasse.

O ponto de partida da psicanálise

No século XIX, o neurologista Jean-Martin Charcot estudou a histeria no hospital da Salpêtrière, em Paris, onde Freud estagiou. Nos "Estudos sobre a histeria" (1895), Freud e Josef Breuer apresentam casos clínicos e uma tese nova: os sintomas histéricos têm sentido e se ligam a lembranças e afetos que não puderam ser ditos. Uma das pacientes, conhecida como Anna O., chamou o tratamento pela fala de "talking cure". A psicanálise nasceu, em boa parte, da escuta dessas mulheres.

Conversão

Freud chamou de conversão o processo pelo qual um conflito psíquico se expressa no corpo, numa paralisia, numa dor, numa crise. O corpo fala do que não encontrou palavras. Isso não quer dizer que o sofrimento seja inventado: ele é real, só não tem a causa que se procurava num exame.

A crítica

O nome histeria carregou por muito tempo um preconceito: a ideia de que mulheres seriam emocionalmente descontroladas por natureza. A psicanalista Maria Rita Kehl, em "Deslocamentos do feminino", mostra como a histérica do século XIX se relaciona com o lugar imposto às mulheres naquela sociedade. Na terceira edição do manual diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana, o DSM-III (1980), a neurose histérica deixou de existir como categoria única, e seus quadros foram redistribuídos em outras categorias, como os transtornos conversivos e dissociativos.

Hoje

Na psicanálise, histeria segue sendo um conceito clínico, que fala de uma forma de se relacionar com o desejo, e não um xingamento nem um destino feminino. Ver sintoma, o feminino e o silenciamento de mulheres e diagnóstico e sofrimento.

Fontes

Conteúdo educativo; não substitui atendimento. Em crise: CVV 188 (ligação gratuita, 24h) ou SAMU 192.