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Histeria
O quadro com que a psicanálise nasceu, e um nome que por séculos serviu para desacreditar o sofrimento de mulheres.
Fonte
Freud, S.; Breuer, J. Estudos sobre a histeria (1895). In: Freud, S. Obras completas, v. 2. Trad. Laura Barreto; rev. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
A palavra vem do grego hystera, útero. Durante séculos, a medicina associou a histeria ao corpo feminino e a usou para explicar, e muitas vezes desqualificar, queixas de mulheres: crises, paralisias, dores, falta de ar, sem lesão que as justificasse.
O ponto de partida da psicanálise
No século XIX, o neurologista Jean-Martin Charcot estudou a histeria no hospital da Salpêtrière, em Paris, onde Freud estagiou. Nos "Estudos sobre a histeria" (1895), Freud e Josef Breuer apresentam casos clínicos e uma tese nova: os sintomas histéricos têm sentido e se ligam a lembranças e afetos que não puderam ser ditos. Uma das pacientes, conhecida como Anna O., chamou o tratamento pela fala de "talking cure". A psicanálise nasceu, em boa parte, da escuta dessas mulheres.
Conversão
Freud chamou de conversão o processo pelo qual um conflito psíquico se expressa no corpo, numa paralisia, numa dor, numa crise. O corpo fala do que não encontrou palavras. Isso não quer dizer que o sofrimento seja inventado: ele é real, só não tem a causa que se procurava num exame.
A crítica
O nome histeria carregou por muito tempo um preconceito: a ideia de que mulheres seriam emocionalmente descontroladas por natureza. A psicanalista Maria Rita Kehl, em "Deslocamentos do feminino", mostra como a histérica do século XIX se relaciona com o lugar imposto às mulheres naquela sociedade. Na terceira edição do manual diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana, o DSM-III (1980), a neurose histérica deixou de existir como categoria única, e seus quadros foram redistribuídos em outras categorias, como os transtornos conversivos e dissociativos.
Hoje
Na psicanálise, histeria segue sendo um conceito clínico, que fala de uma forma de se relacionar com o desejo, e não um xingamento nem um destino feminino. Ver sintoma, o feminino e o silenciamento de mulheres e diagnóstico e sofrimento.
Fontes
- Freud e Breuer · Estudos sobre a histeria (1895), em Obras completas, v. 2 (Companhia das Letras, 2016, trad. Laura Barreto, rev. Paulo César de Souza)
- Kehl · Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade (1998; Boitempo, 2016)
- American Psychiatric Association · DSM-III, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 3ª ed. (1980)
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