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O feminino e o silenciamento de mulheres
Como a psicanálise pensou a mulher, o que ela própria reconheceu não saber, e como rótulos ainda servem para calar mulheres.
Fonte
Kehl, M. R. Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade. Rio de Janeiro: Imago, 1998; 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2016.
A psicanálise nasceu escutando mulheres (ver histeria), mas também carregou os limites da época em que surgiu. Olhar para essa história com cuidado é parte do próprio método: escutar o sujeito, e não o lugar que a sociedade reservou para ele.
O que Freud reconheceu não saber
Na conferência "A feminilidade" (1933), Freud expõe as suas hipóteses sobre o desenvolvimento da menina e termina admitindo que o que tinha a dizer era incompleto e fragmentário, sugerindo que se buscasse mais na experiência de cada um, nos poetas ou em pesquisas futuras. Muitas de suas ideias sobre a mulher foram discutidas e criticadas depois, inclusive por psicanalistas.
Uma leitura brasileira
Em "Deslocamentos do feminino", originado da tese de doutorado de Maria Rita Kehl, a autora examina como a ideia de feminilidade se formou na passagem para a modernidade e como as mulheres que procuravam Freud viviam o conflito entre o lugar que lhes era imposto e o desejo de outra coisa.
Gênero e sofrimento
A psicóloga Valeska Zanello, em "Saúde mental, gênero e dispositivos" (2018), propõe que o sofrimento psíquico também se organiza pelo gênero: o que se espera de uma mulher, no amor, na maternidade, no corpo, produz formas próprias de adoecer.
O silenciamento
Chamar uma mulher de louca, de descontrolada, de "hormonal" é uma forma antiga de não escutar o que ela diz. Hoje, o mesmo pode acontecer com nomes de transtornos usados fora do cuidado clínico, para desacreditar um relato. Um diagnóstico pode ser útil, mas não diz totalmente quem a pessoa é (ver diagnóstico e sofrimento). Para a clínica, a questão é ética: oferecer um lugar onde a mulher possa falar e ser levada a sério como sujeito, com sua singularidade.
Fontes
- Kehl · Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade (1998; Boitempo, 2016)
- Freud · A feminilidade (1933), em Obras completas, v. 18 (Companhia das Letras, 2010, trad. Paulo César de Souza)
- Zanello · Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação (Appris, 2018)
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